No Iraque, Papa concretiza em palavras e gestos o diálogo ecumênico e inter-religioso

O assessor da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-Religioso e subsecretário adjunto de pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Marcus Barbosa, comentou o significados religiosos e políticos da 33ª viagem internacional do pontificado de Francisco. Após 15 meses sem realizar viagens, o Papa inicia hoje, 5 de março, no Iraque uma viagem de três dias, até o dia 8, que prevê uma agenda de encontros cheia de simbolismos com autoridades e religiosos – tanto cristãos quanto muçulmanos.

O Iraque, apesar do seu simbolismo para as religiões Abrâamicas, nunca foi visitado por nenhum Papa. “É a primeira vez que um Papa visita o Iraque, terra de nosso pai, Abraão e a terra do profeta Jonas. Chegou o tempo favorável”, disse padre Marcus.

Segundo o vaticanista Filipe Domingues, doutor pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, o então Papa João Paulo 2º chegou a cancelar de última hora, em 1999, a ida ao país por razões de geopolítica. Francisco chegou a adiar a viagem duas vezes por conta da pandemia da Covid-19. Nesta semana, ele disse que vai porque não pode decepcionar o povo iraquiano.

Novos caminhos para a paz

De acordo com o padre Marcus, esta será um visita que abrirá novos caminhos de diálogo e de paz. “Ela assume um significado todo especial pela proximidade, conforto, apoio e incentivo do Santo Padre aos cristãos e povos marcados por medos e dúvidas e que passaram por muitos momentos difíceis por causa de perseguições e guerras”, disse.

A visita do Papa Francisco tem o objetivo de motivar os cristãos do Iraque a perseverar, resistir e testemunhar com coragem a fé. De acordo com o Papa Francisco, todos os encontros e celebrações previstos nessa visita manifestarão carinho e estímulo não só aos cristãos, mas ao povo iraquiano.

Dados levantados pela fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN) indicam que a população cristã do país caiu de 1,4 milhão, em 2003, para menos de 250 mil atualmente.  Os árabes representam 85% da população  do país e os curdos 10%. Os muçulmanos são 98,5% da população, enquanto os católicos 1,5%. O Papa se encontrará com lideranças muçulmanas e xiitas, que representam 64% da população iraquiana hoje; os sunitas somam 32%.

Todos esses encontros, de acordo com assessor da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-Religioso da CNBB, concretizam em palavras, gestos e ações o necessário e urgente diálogo ecumênico e inter-religioso na construção da Fraternidade. Padre Marcus aponta o diálogo fraterno entre as diferentes religiões como um tema caro em todo pontificado do Papa Francisco. “Este caminho foi expresso de maneira viva e desafiadora na sua última carta encíclica Fratelli Tutti sobre a fraternidade e amizade social”, disse.

O subsecretário adjunto de pastoral da CNBB chama a atenção para arte da visita do Papa Francisco (ao lado) que  apresenta visualmente o sentido desta viagem apostólica. Com o lema da visita: ‘Somos todos irmãos’, extraído do Evangelho de Mateus, apresenta o Papa em um gesto de saudação ao país, representado no mapa por seus símbolos: a palmeira e os rios Tigre e Eufrates; mostra também uma pomba branca, com um ramo de oliveira, símbolo da paz, em seu bico, voando sobre as bandeiras da Santa Sé e da República do Iraque.

“Todo esse profundo e rico simbolismo dá a marca dessa visita onde muros de divisão e discórdias serão desconstruídos e novas pontes de diálogo e reconciliação serão abertas”, aponta padre Marcus.

Para o assessor de ecumenismo da CNBB, essa visita é um ato muito corajoso que reforça a esperança para todos, especialmente nesses momentos de tantas polarizações e extremismos que estamos vivendo. “Acalma e alegra o nosso coração poder saber que as medidas possíveis de segurança estão sendo tomadas e, principalmente, saber que o povo do Iraque está feliz e entusiasmado e dará ao Santo Padre uma calorosa acolhida, com os corações e braços abertos”.