Grupo de dança se reinventa na pandemia

"O isolamento físico que esse momento nos pede, não precisa ser, necessariamente, um isolamento social e afetivo", diz Rafael Tursi, diretor do grupo PÉS, de teatro-dança com pessoas com deficiências. O professor do Instituto de Artes (IdA) diz isso motivado pelos trabalhos que segue fazendo com o grupo, que há nove anos trabalha, de forma contínua, com educação e criação artística com pessoas com diferentes deficiências, sejam físicas, intelectuais ou sensoriais.

Seguindo com os trabalhos na quarentena, o grupo PÉS foi convidado novamente para representar o país, no III Encontro Latino-Americano de Dança e Inclusão, organizado pela rede MICA - Mundo Integrado con Amor, com sede na Argentina, e apoiado pelo Governo da Cidade de Buenos Aires. Com as restrições mundialmente impostas pela pandemia, o evento ganhou caráter virtual, intitulando-se "Un Abrazo Telemático" e está com suas mais de vinte atividades sendo mediadas pela internet.

Iniciado em 25 de maio, o evento vai até 7 de junho. Durante o Encontro, o grupo brasileiro é responsável por uma oficina de teatro-dança, no dia 5, ministrada pelos integrantes Thais Cordeiro e Roges Moraes, e uma residência artística, de montagem coreográfica, dirigida por Rafael Tursi, a ser exibida via YouTube, na noite de 6 de junho.

"Somos 18 artistas na residência. São pessoas vindas do Brasil, Argentina, Bolívia, Peru, Costa Rica e da Venezuela. Através da poesia e da linguagem corporal, falamos uma mesma língua, trocamos pesquisas, processos criativos, afetos", conta o diretor. 

Grupo PÉS aderiu aos encontros virtuais para dar continuidade às atividades. Imagem: Reprodução

ADAPTAÇÃO – Os ensaios, que ocorriam nas salas do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília, tiveram de ser cancelados em razão da pandemia do novo coronavírus.

Tursi diz que o grupo, que havia acabado de retornar das férias, sentiu a força do distanciamento e com isso a necessidade de se adaptar aos meios tecnológicos, entre eles as lives

Fazer transmissões ao vivo pelas redes sociais foi a primeira atividade do isolamento para o grupo, que desde então realiza semanalmente lives com conteúdo variados.

Na troca de saberes, pesquisadores acadêmicos entram na rede para compartilhar seus trabalhos finais de graduação e pós-graduação em artes, relacionados ao trabalho artístico e pedagógico com pessoas com deficiência. É o caso do próprio diretor Rafael Tursi, que criou e firmou o grupo PÉS a partir de sua pesquisa de licenciatura em Artes Cênicas e do mestrado em Arte.

Há também os conteúdos chamados pelo grupo de "Quem cuida", em que mães e pais de parte dos integrantes com deficiência se reúnem para um papo sobre suas vidas fora do ensaio. No momento de intercâmbio, diretores e artistas de outros grupos que trabalham com arte com pessoas com deficiência compartilham suas experiências.

Tursi afirma que esse tipo de atividade tem ajudado o grupo a se aproximar das pessoas que só os conheciam por meio de apresentações e fotos. "É um processo de humanização do trabalho, de contar para o público como fazemos as coisas", afirma o diretor.

Para além das lives, o grupo tem atualizado suas redes com vídeos e fotos de apresentações. Até a festa de comemoração dos nove anos do grupo aconteceu de forma virtual, no mês de maio.

Rafael Tursi, diretor do grupo PÉS. Foto: Juliana Boechat/Claraboia Filmes

RECONHECIMENTO – O grupo é ganhador dos prêmios de Melhor Espetáculo Adulto de Teatro 2019 (Grupo Tripé, 2020), Prêmio Cultura e Cidadania - Arte Inclusiva (GDF, 2018), Melhor Trabalho Nacional de Cultura e Lazer e Melhor Trabalho Nacional de Educação Inclusiva (Congresso Nacional de Diversidade e Inclusão, 2012).

Ademais, o PÉS soma em seu currículo cinco espetáculos apresentados no Distrito Federal, além da participação em palestras, debates e apresentações em mais sessenta eventos, desde sua criação, incluindo atividades no estados de Goiás, São Paulo e Recife.

Fora do Brasil, o grupo esteve em Cascais (Portugal) e também em Bariloche (Argentina), em 2017, para apresentar o espetáculo Similitudo, o único com representantes brasileiros, no Arte x Igual, Festival Internacional de Artes com Pessoas com Deficiência.

Depois do Encontro Latino-Americano, a próxima participação do PÉS será no III Encontro PROCENA, em Goiânia (GO). O evento que tem como tema a acessibilidade, dança e profissionalização de pessoas com deficiência, acontecerá em agosto deste ano, também por meio das plataformas virtuais.

SERVIÇO –  Quem quiser acompanhar as lives do grupo PÉS pode buscar por @projetopes, no Facebook e Instagram. A programação do III Encontro Latino-Americano de Dança e Inclusão está disponível em https://mica.org.ar/