Basta! Sem essa de feiquinius

Por Sylvia Ficher

Para que nossa história não se torne um grande 1º de Abril...

Quando uma coisa acontece sempre, não por isso seja considerada natural. Não deixe nada ser considerado natural em uma época de maldita confusão, desordem ordenada, capricho planejado, e humanidade desumanizada, para evitar que todas as coisas sigam inalteráveis.

Bertolt Brecht, A exceção e a regra, 1930.                                                                             

O assunto da hora que está incomodando muita gente são as tais das fake news, ou melhor, a tal da feiquinius. Daí esta diatribe angustiada não só pela saúde, como pela política. Ainda assim, uma tentativa de tratar de forma ligeira uma denúncia exasperada, nada serena:

 

Basta! Sem essa de FAKE NEWS. São NOTÍCIAS FALSAS. São NOTÍCIAS FRAUDULENTAS. São NOTÍCIAS CRIMINOSAS. São NOTÍCIAS MENTIROSAS.

Basta! Sem essa de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Fake News, é a CPMI das NOTÍCIAS MENTIROSAS.

As línguas não são estanques, estão sempre se renovando. Palavras são inventadas diariamente. Há inúmeros exemplos: sapatênis (ô, palavrinha feia), videoconferênciaprótese de siliconeressignificar (tão nova que nem consta no Houaiss), realidade fluidaSUV... Pensemos também nas gírias, mal aparecem e logo são terceirizadas.

E temos os estrangeirismos, hoje em dia em grande parte de origem no inglês, o francês não mais up-to-date. Até um germanismo às vezes faz presença: Brasilien über alles. Nada contra, estrangeirismos são fruto de influências culturais, veja-se a extensa hegemonia do latim. Fator preponderante é o tecnológico: a poderosa Castilla dos descobrimentos ficou grafada em várias línguas e muitos termos náuticos vêm do espanhol. Pode ser que em breve estejamos empregando palavras de algum idioma chinês.

Atualmente imperam os termos da informática com seus hardwares & softwares. Alguns não fazem grande diferença, como deletar por apagar, é tudo latim vintagepacare e del?re. Já escâner e escanear vieram para facilitar a nossa vida: abandonemos o palavroso aparelho de varredura eletromagnéticaescaneemos... Check upcheck in e check out são expressões econômicas para explicar ações bem mais complexas. Bem-vindas!! Idiotismos dão graça ao vernáculo, desde que não se confundam com idiotices e inanidades, tão presentes em tempos de pandemônia (neologismo da hora), algumas de alto escalão.

Exemplo instrutivo é o restaurante self service. Diante das dúvidas suscitadas, passou por uma inspirada metamorfose linguística: aqui na Lusofolândia (mais um útil neologismo) virou serve-serve ou cê-se-serve. Que tal, na ausência de um maitre d', recorrermos a um chef de cuisine cê-se-serve ou um master chef serve-serve?

Há ainda palavras que ficam ultrapassadas ou mudam de acepção. Telefone teve que ser adjetivado telefone fixo ao levar um chega pra lá do celular, adjetivo que virou substantivo, curiosamente não tendo sido adotado o gringo mobileRetroprojetor sumiu de vez, agora é data show, e assim por diante...

Infinitos são os exemplos de novidades e descartes na fala e na escrita, múltiplas são as razões... Porém há expressões malévolas, cuja adoção cheira a má-fé. É o caso de fake news, a ubíqua feiquinius. Será que o seu sentido é evidente para nós, incautos lusófonos? Que se trata de notícias falsas? Ou, para sermos moderninhos, de um caô? Ou, para darmos a devida ênfase ao real significado: notícias mentirosas?

Essa tal da feiquinius não é um mero eufemismo, é uma baita enganação, uma baita manipulação semântica que serve para acobertar a imensidão de mentiras sendo divulgadas a cada minuto, 24/7, pelas inúmeras mídias tão facilmente acessíveis. A tal da feiquinius é criminosa, ela encobre e mascara a divulgação de mentiras. E, como se não bastasse a confusão que causa, agora que estamos isolados e indefesos à espera do novo normal, cada um em seu romi-ófissi, em seu escritório, doce lar, apareceu um irmão caçula, o lokidaum.

Basta! Sem essa de FAKE NEWS. São NOTÍCIAS FALSAS. São NOTÍCIAS FRAUDULENTAS. São NOTÍCIAS CRIMINOSAS. São NOTÍCIAS MENTIROSAS.

Basta! Sem essa de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Fake News, é a CPMI das NOTÍCIAS MENTIROSAS.

A última flor do Lácio é bela, talvez inculta, porém por demais rica e vai sobreviver, como bem ensina o Houaiss:

FAKE NEWS acaçapa, abonança, abranda, amaina, amansa, ameniza, amortece, apazigua, aquieta, assossega, atenua, camufla, comede, desapoquenta, desassombra, diminui, disfarça, dissimula, edulcora, encobre, mascara, minora, mitiga, modera, pazigua, reduz, sonega a VERDADE.

Não vamos amordaçar, bridar, calar, cercear, coarctar, coibir, comedir, conter, domar, dominar, embargar, embridar, enfrear, frenar, limitar, moderar, recalcar, refrear, represar, restringir, retundir, sofrear, sopear, sopesar, sopitar, sufocar, sujeitar, suster, tolher a VERDADE.

Usar a expressão FAKE NEWS é atraiçoar, burlar, calotear, defraudar, disfarçar, embaçar, embromar, embrulhar, embustear, empulhar, engambelar, engodar, engrupir, falsear, fintar, fraudar, iludir, ilusionar, intrujar, lograr, ludibriar, mentir, tapear, trair, velhaquear a VERDADE.

Basta! Sem essa de FAKE NEWS. São NOTÍCIAS FALSAS. São NOTÍCIAS FRAUDULENTAS. São NOTÍCIAS CRIMINOSAS. São NOTÍCIAS MENTIROSAS.

Basta! Sem essa de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Fake News, é a CPMI das NOTÍCIAS MENTIROSAS.

Sylvia Ficher é graduada em Arquitetura pela Universidade de São Paulo, obteve o Master of Science in Historic Preservation pela Columbia University, Nova York. Doutora em História Social pela FFLCH/USP. Fez Pós-doutorado em Sociologia na École des Hautes Etudes en Science Sociales, Paris. Professora emérita e pesquisadora Sênior da Universidade de Brasília, pesquisadora CNPq 1A e coordenadora do Grupo de Pesquisa CNPq Arquitetura e Urbanismo da Região de Brasília.