Ser jovem na cidade de São Paulo é para os fortes. 30% estão desempregados

Ser jovem na cidade de São Paulo é para os fortes. 30% estão desempregados. A maior dificuldade para arrumar emprego é a tal falta de experiência (44%). 30% já sofreram (sofrem) algum tipo de constrangimento no ambiente de trabalho. E 72% estão fora do ensino superior. Não é de se estranhar, portanto, que a expectativa em relação ao mercado de trabalho no futuro seja, de modo geral, pessimista. Quanto maior for a formação escolar, maior o pessimismo. Mas o cenário muda quando se trata de projetar o próprio futuro:  são otimistas e se veem daqui a cinco anos trabalhando com carteira assinada ou também como empreendedores.

É o que mostra pesquisa Juventude e Mercado de Trabalho realizada pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) com 400 jovens entre 15 e 29 anos nas cinco regiões da cidade entre 10 e 23 de setembro, abordando 46 questões sobre a vida escolar, trabalho/vida profissional e mercado de trabalho. Os questionários validados para a composição da amostra e tabulação dos dados garantiram 95% de nível de confiança e 5% de margem de erro da pesquisa.

A pesquisa foi divulgada no último dia 28, com a participação de Luciano Máximo, diretor do Programa Minha Chance, da Secretaria de Desenvolvimento do estado de São Paulo; Ramirez Lopes, coordenador de Políticas para a Juventude da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo e os professores da FESPSP, Stella Schrijnemaekers e Paulo Silvino Ribeiro.

O perfil dos pesquisados mostra que São Paulo está sendo construída por jovens mulheres (55%), que têm entre 15 e 21 anos (73%), vivem com os pais e não possuem renda (39%). Houve uma distribuição relativamente equivalente entre brancos e negros na amostra. Entre jovens que possuem renda, 24% ganham entre 1 e 2 salários mínimos. Ao todo, 67% estudam, sendo que 30% possuem Ensino Médio completo, 25% Ensino Médio incompleto, 6% Superior Completo e 28% Superior incompleto. Quanto ao trabalho, 55% trabalham e 46% não trabalham ou nunca trabalharam. Dentre todos os respondentes, 35% procuram emprego.

“A pesquisa mostra que o número de “nem-nem” na cidade de São Paulo, àqueles que nem estudam e nem trabalham, é de 8%, contra os 24% estimados em todo o país pelo IBGE”, destaca Paulo Silvino Ribeiro, coordenador do núcleo de pesquisas da FESPSP. “É importante lembrar que o IBGE está apontando um dado nacional. Outros estados com taxas de desemprego mais elevadas e níveis de escolaridade menores puxam a média nacional para cima. O que chama atenção é o fato da cidade de São Paulo, apesar do seu poder econômico, ainda assim ter uma parcela importante de seus jovens sem condições ou desmotivados para pleitear uma colocação”, explica o sociólogo.

Formação Escolar e Trabalho

Do total pesquisado, 25% dos jovens que trabalham não estudam; 30% estudam e trabalham, e 37% não trabalham, mas estudam. Na comparação por faixa etária, os mais velhos trabalham mais e estudam menos. Ainda sobre os “nem-nem”, chama a atenção o fato de que 9% entre os jovens de 22 a 25 sejam desse grupo. Entre os jovens que não trabalham, 24% não estudam e, entre os que trabalham, 45% não estudam.

Na comparação da formação escolar dos indivíduos considerando a cor, os brancos têm maior escolaridade, principalmente em termos de Ensino Superior e Ensino Técnico Profissionalizante, o que significa vantagem em termos de competição por vagas no mercado.Quanto ao trabalho, 55% trabalham e 46% não trabalham ou nunca trabalharam. Indivíduos brancos ocupam mais postos de trabalho que negros, 53% contra 42%, respectivamente. Do total de pesquisados, 35% estão procurando emprego.

A maioria dos jovens que está em busca de emprego estuda (64%). “Os jovens valorizam o estudo, assinalam que garante um futuro profissional. A maioria concorda totalmente ou em parte com a afirmação estudar tem uma relação direta com o trabalho”, explica Ribeiro. “Grande parte acredita que daqui a cinco anos estará estudando para melhorar o desempenho profissional ou buscar novas oportunidade de emprego”.

Quem parou de estudar justifica que foi pela necessidade de trabalhar ou por questões financeiras. Boa parte dos jovens que trabalha já está, pelo menos, no segundo emprego, pois 83% afirmam ter trabalhado anteriormente à pesquisa. Entre os que trabalham, predominam aqueles que têm como atividade serem assalariados registrados. A maioria aponta que a atividade que exerce (ou exerceu) tem compatibilidade com a escolaridade que possui, mas para 29% ela é inferior.

Um dado alarmante é o fato de 30% dos jovens já terem sofrido ou estarem sofrendo algum tipo de constrangimento no trabalho. 59% são mulheres e 39% têm entre 19 e 21 anos. O problema que mais veio à tona é o assédio”, ressalta a professora Stella Schrijnemaekers. “Se pensarmos que são pessoas que ingressaram a pouco tempo no mercado de trabalho, isso diz muito sobre a desigualdade e o preconceito em nosso país. Será que temos um mercado de trabalho que constrange e assedia as pessoas? Temos jovens mais sensíveis hoje em dia? Podemos chamá-los de mimimi? Creio que não. Podemos ter jovens que não aceitam mais o que se aceitava antes.”

Formação Escolar e Mercado

Dentre os jovens que procuram emprego, 46% têm entre Ensino Médio completo e incompleto, e 35% Superior incompleto. Apenas uma ínfima parte tem Superior completo (6%). Ainda entre os que procuram emprego, predominam indivíduos negros (49%). A imensa maioria dos que procuram emprego aponta que a maior dificuldade para encontrar uma vaga é a “falta de experiência profissional” (44%), seguida de “não ter formação” (29%) e “morar longe da vaga ofertada” (6%). “Compartilho nossa experiência dentro do programa Minha Chance: fizemos um piloto com a Hi Happy e abrimos um curso de 100 horas para preparar jovens para a cota de empregabilidade que a empresa aceitou destinar para esses jovens. Dos 75 formados, 43 foram aprovados para o processo seletivo e apenas 10 compareceram na Avenida Paulista para a dinâmica. 3 foram contratados. A distância certamente interferiu no processo. O receio de participar de dinâmicas também”, explicou Luciano Máximo.

Avaliando a opinião de todos os respondentes sobre se aceitariam ou não uma atividade inferior à formação, 57% apontaram que sim. Entre os que procuram emprego, esse valor sobe para 64%. Quanto ao preparo para o mercado de trabalho, 40% dos entrevistados se sentem preparados para buscar uma vaga, contra 31% que se dizem nem preparados, nem despreparados, e 18% que afirmam estar despreparados. Entre os jovens que procuram emprego, 43% se sentem preparados.

Ainda em relação ao preparo para uma vaga, entre os que se sentem muito despreparados predominam indivíduos negros (53%) em detrimento aos brancos (40%). Também foi perguntada a opinião dos jovens sobre a seguinte afirmação: “os processos seletivos das empresas são justos e imparciais”. Entre os jovens que procuram emprego, metade discorda totalmente (16%) ou em parte (34%).

“Essa opinião dos jovens sobre os processos seletivos está relacionada a auto percepção que eles têm sobre o seu preparo diante das várias reprovações que enfrentam em processos seletivos. Por outro lado, o mercado tem se mostrado rigoroso na seleção, demandando de boa parte dos jovens algo que eles ainda não têm: experiência e formação”, afirma Ribeiro.

Entre os jovens que procuram emprego predomina o desconhecimento sobre ações do governo para inserção de jovens no mercado de trabalho, número que chega a 67%. “Ainda enfrentamos dificuldades para nos comunicarmos melhor com os jovens e estamos trabalhando para isso”, comentou Ramirez Lopes.

Coletivo pessimista x individual otimista  

Quando o tema é futuro, com relação à expectativa no mercado, de modo geral, a maioria dos jovens é pessimista. “Quanto maior a escolaridade, maior o pessimismo quanto à piora dos níveis de competitividade e de ganho salarial”, ressalta o professor Ribeiro.

No entanto, a maioria dos respondentes é otimista em relação à possibilidade de estar empregado com carteira assinada daqui a 5 anos. Quanto maior a escolaridade, maior a expectativa em ser assalariado daqui a 5 anos. “Parece uma contradição, mas percebemos que no coletivo os jovens estão pessimistas em relação ao futuro, mas quando a situação dependente exclusivamente dele, a nível individual a expectativa é otimista”, acrescenta a professora Stella.

Daqui a 5 anos, na comparação entre os grupos de jovens que hoje estudam com aqueles que não estudam, percebe-se que, entre os primeiros, há predominância do interesse por atividades de maior estabilidade como assalariado registrado, funcionário público e profissional liberal. Já entre os que não estudam, embora também almejem ser assalariados registrados, percebe-se maior interesse por atividades empreendedoras, como autônomo e empresário (MEI, pequena ou grande empresa).